terça-feira, 29 de novembro de 2011

"Rincones", Antonio Di Benedetto

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Outra tradução minha para um conto de Antonio Di Benedetto. Desta vez, "Rincones", também reunido no livro Cuentos del exilio (1983).
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CANTOS
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Acho que era amor e, no entanto, não perseveramos.
Após dez anos desse encontro/desencontro, dei de cara com ela ao entrar em um escritório.
Conversamos. Eu havia me casado, ela não, mas não insinuou que me culpava por sua solteirice.
Quis defender-se do que já havia passado, e deixou cair uma acusação trivial:
– Não te entendia, Pedro. Seu caráter tão complexo...
Deixou no ar a repreensão caduca e se recompôs para confessar sua própria fraqueza:
– Bom, se eu também não entendo as coisas mais simples.
Opinei que ela insistia em se maltratar com sua excessiva modéstia. Aceitou, à sua maneira:
— Não sei... sou assim. Sempre vai me encontrar pelos cantos.
Em seguida, nessa manhã, nos deixamos ir.
Depois, ao descer de um ônibus, outro ônibus destroçou seu corpo.
Soube por um jornal vespertino. Acudi com o pequeno cortejo de surpreendidos e pesarosos que ela podia reunir.
Alguém havia exercido a piedade de recompor, ainda que toscamente, sua face muito machucada. Mas ninguém teve a compaixão de cobrir o círculo de vidro do caixão, para que não nos detivéssemos ante o rosto desfigurado.
Já não era ela.
Agora deslizo pelos cantos. Os cantos que possuem as casas que constroem os homens e os cantos que têm os espaços abertos: ruas, praças, alamedas. Procuro por ela.
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sábado, 26 de novembro de 2011

"Martina espera", Antonio Di Benedetto

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Traduzi este conto há uns quatro anos. Até já tive um blog que se chamava assim, Martina espera, e que durou apenas umas semanas. Redescobri a tradução entre meus arquivos nestes últimos dias, quando buscava uma outra coisa. E acho que não cairia mal colocá-la aqui. O conto faz parte do livro Cuentos del exilio (1983), do argentino Antonio Di Benedetto (1922 - 1986). Sua obra contística é toda muito boa, por sinal. Li seus contos completos lá pelo lejano ano de 2007 e me lembro de ter gostado de todos os livros. De seus romances, só conheço um: El silenciero, que também me agradou bastante.
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MARTINA ESPERA
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         Martina espera o marido.
         Quer agradá-lo. O marido amava gatos. Ela cria um gato de luxo, de suave e copioso pelo.
         Martina quase não precisa do mundo exterior. Só aparece para receber ou gastar com o imprescindível suas discretas rendas.
         Após doze anos regressa o marido. Vem grisalho, mas fortalecido pela luta com os bosques e as montanhas, os pântanos e os rios. Não traz os dólares que sua esperança lhe tinha prometido ao partir.
         Martina o vê afundar os dedos na pelagem já opaca e algo encrespada do gato. Como se o saudasse com mais ternura que a ela. Depois não o toca mais.
         Um dia Martina observa que abre uma janela e permanece muito tempo olhando para fora, para o céu.
         Deixa a janela aberta e ela diz “Está ventando” e ele responde “Muda o cheiro das coisas”.
         Pouco depois desaparece, ele com a maleta.
         Martina compreende que se foi, sem um adeus. Sem explicações. Nada mais compreende.
         Contempla, examina a sala e diz a si mesma que está como era doze anos atrás.
        Registra o rosto diante do espelho; fita os cabelos e se concede indulgência: “Como me penteava então, como ele gostava”.
         Senta-se absorta. Trata de entender.
         O gato se desloca, de um sofá a outro, para cochilar mais perto do canto preferido.
         Martina o observa. Repreende-o, com uma voz tênue, como sem dor:
         – Não gostou de você, por isso se foi. Que ia fazer aqui, sem um gato que lhe agradasse? 
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Algo de Alejandra Pizarnik

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Disponho aqui traduções minhas para alguns dos poemas do livro Árbol de Diana (1962), da poeta argentina Alejandra Pizarnik. Essas traduções também se encontram publicadas na revista eletrônica Desenredos e podem ser lidas clicando-se aqui. Alejandra Pizarnik nasceu em 29 de abril de 1936 em Buenos Aires, Argentina. Aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena (1955), que seria depois renegado por ela e excluído de suas principais antologias. Cinco de seus poemários tem sido apontados como peças fundamentais de sua obra: Árbol de Diana (1962), Los trabajos y las noches (1965), Extracción de la piedra de la locura (1968), El infierno musical (1971) e Textos de la sombra y Últimos poemas (1982), este último publicado postumamente. Escreveu também prosa – principalmente ensaios e leituras críticas, nos quais muitas vezes é possível vislumbrar uma espécie de arte poética de sua própria produção – e traduziu autores de língua francesa como Antonin Artaud e Aimé Cesaire. Segundo Silvia Baron Supervielle e Claude Couffon, responsáveis pela edição de sua poesia completa na França, reina na obra de Alejandra um potente desejo de silêncio e em seus poemas tudo é, a um só tempo, real e irreal. Em 25 de setembro de 1972, aos 36 anos, morreu em Buenos Aires em decorrência de ingestão excessiva de barbitúricos.*
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Estas são as versões que nos propõe:
um buraco, uma parede que treme...
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por um minuto de vida breve
única de olhos abertos
por um minuto de ver
no cérebro flores pequenas
dançando como palavras na boca de um mudo
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ela se despe no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
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um vento fraco
cheio de rostos dobrados
que recorto em forma de objetos para amar
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agora
mmmnesta hora inocente
eu e a que fui nos sentamos
no umbral de meu olhar
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explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
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te afastas dos nomes
que fiam o silêncio das coisas
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Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível já sabiam os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso em suas preces havia um som de mãos apaixonadas pela névoa.
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no inverno fabuloso
a endecha das asas na chuva
na memória da água dedos de névoa
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É um fechar de olhos e jurar não abri-los. Enquanto do lado de fora se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento na verdade demasiado grande pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soam magicamente.
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Para além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência
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* Pequena biografia incluída por sugestão muito bem-vinda de Juliana Bratfisch.