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domingo, 22 de abril de 2012

"Cronos", Nicanor Parra

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Cronos
Nicanor Parra
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n
Em Feira de Santana
Os
mmdias
mmmmsão
mmmmmminterminavelmente
mmmmmmmmmmmmmmmmlongos:
Várias eternidades em um dia.
Nos movemos a lombo de mula
Como os vendedores de Varzedo:
Se boceja. Volta-se a bocejar.
No entanto as semanas são curtas
Os meses passam a toda
Eosanosparecemquevoam.
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(Poema do livro Canciones rusas, de 1967. Tradução recontextualizada de Clarisse Lyra).
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E já que estamos pensando em Feira de Santana (que no poema veio ocupar o lugar de Santiago do Chile), gostaria de compartilhar uma música que me emocionou esta manhã. Trata-se de If You Hold a Stone, de Caetano Veloso.

sábado, 21 de abril de 2012

"Mariposa", Nicanor Parra

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Borboleta
Nicanor Parra
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No jardim que parece um abismo
A borboleta chama a atenção:
Interessa seu voo recortado
Suas cores brilhantes
E os círculos pretos que decoram as pontas
mmmdas asas.
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Interessa a forma do abdômen.
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Quando gira no ar
Iluminada por um raio verde
Como quando descansa do efeito
Que lhe produzem o orvalho e o pólen
Aderida ao anverso da flor
Não a perco de vista
E se desaparece
Para além da cerca do jardim
Porque o jardim é pequeno
Ou por excesso de velocidade
Sigo-a mentalmente
Por alguns segundos
Até que recupero a razão.
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(Poema do livro Versos de salón, de 1962. Tradução de minha autoria).

domingo, 15 de abril de 2012

"Tres poesías", Nicanor Parra

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Três poesias
Nicanor Parra
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1
Já não me resta nada a dizer.
Tudo o que tinha a dizer
Foi dito não sei quantas vezes.
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2
Perguntei não sei quantas vezes
Mas ninguém responde minhas perguntas.
É absolutamente necessário
Que o abismo responda de uma vez
Porque já vai restando pouco tempo.
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3
Apenas uma coisa é clara:
Que a carne se enche de vermes.
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(Poema publicado em Versos de salón (1962). Tradução de minha autoria).

domingo, 1 de abril de 2012

Lições de escritura

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Antonin Artaud em tradução de Alejandra Pizarnik
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Talvez seja necessário dizer que ando ultimamente pensando bastante nas seguintes palavras de Julio Cortázar:
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"Se eu fosse uma pessoa de dar conselhos, diria a um jovem escritor que tenha dificuldades de escrever para deixar de escrever por um tempo por conta própria e passar a traduzir boa literatura; um dia ele se dará conta de que está escrevendo com uma fluidez que não tinha antes".
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E nessas outras de Roberto Bolaño:
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"Muitas podem ser as pátrias [do escritor], me ocorre agora, mas apenas um o passaporte, e esse passaporte evidentemente é o da qualidade da escrita. Que não significa escrever bem, porque isso qualquer um pode fazer, mas escrever maravilhosamente bem, e nem sequer isso, pois escrever maravilhosamente bem também pode qualquer um fazer. Então o que é uma escrita de qualidade? Pois o que sempre foi: saber meter a cabeça no escuro, saber pular no vazio, saber que a literatura basicamente é um ofício perigoso. Correr pela borda do precipício: de um lado o abismo sem fundo e do outro lado os rostos de quem se gosta, os sorridentes rostos de quem se gosta, e os livros, e os amigos, e a comida. E aceitar essa evidência ainda que às vezes nos pese mais do que a lápide que cobre os restos de todos os escritores mortos. A literatura, como diria uma folclórica andaluza, é um perigo".
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E com isso volto outra vez sobre Cortázar, quando este diz:
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"Se fizéssemos uma escala de valores de jogos que fosse dos mais inocentes aos mais refinadamente intencionais, acredito que teríamos de colocar a literatura (e a música, a arte, em geral) entre os de expressão mais alta, mais desesperada (sem o valor negativo desta palavra)".
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E então penso em Artaud, e neste trechinho do prólogo que Alejandra Pizarnik escreveu para algumas de suas traduções do poeta francês:
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"Aquela afirmação de Hölderlin, de que 'a poesia é um jogo perigoso', tem seu equivalente real em alguns sacrifícios célebres: o sofrimento de Baudelaire, o suicídio de Nerval, a misteriosa e fugaz presença de Lautréamont, a vida e a obra de Artaud... Estes poetas, e uns poucos mais, tem em comum o haver anulado - ou querido anular - a distância que a sociedade obriga a estabelecer entre a poesia e a vida".   
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E então eu fico pensando... e não posso fazer muito mais do que isso.

sábado, 31 de março de 2012

"Escritores que se alejan", Roberto Bolaño

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O poeta francês Antonin Artaud e seu hyper-expressif olhar
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Escritores que se afastam
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Roberto Bolaño
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    Faz uns dias, com Juan Villoro, nos pusemos a relembrar aqueles autores que haviam sido importantes em nossa juventude e que hoje caíram em uma espécie de esquecimento, aqueles autores que gozaram em seu momento de muitos leitores e que hoje sofrem a ingratidão desses mesmos leitores e que, para completar, não conseguiram interessar aos leitores de uma nova geração.
   Pensamos, claro, em Henry Miller, que em seu dia teve uma grande difusão na Espanha, e cujo nome estava na boca de todos, mas cuja fama talvez obedecia a um equívoco: é provável que mais da metade dos que compraram seus livros o tenham feito esperando encontrar um pornográfico, algo que de certa maneira se justificava e era uma necessidade na Espanha que emergia depois de quarenta anos de censura fradista e franquista.
   No outro extremo nos lembramos de Artaud, puro nervo ascético, que em seu dia também teve boas vendas, e não poucos admiradores espanhóis e mexicanos, e que se alguém comete hoje o erro de perguntar a uma pessoa de menos de trinta anos por seu nome seguramente receberá uma resposta desoladora. Já nem mesmo aqueles que se interessam por cinema sabem quem foi Antonin Artaud, o que é bastante grave.
    O mesmo ocorre com Macedonio Fernández: seus livros, salvo na Argentina, suponho, não se encontram nas livrarias. E com Felisberto Hernández, que nos anos setenta teve um pequeno boom, mas cujos relatos, hoje, só se podem encontrar depois de procurar muito em sebos. Presumo que a sina de Felisberto no Uruguai e na Argentina deve ser diferente, o que nos leva a um problema ainda pior do que o esquecimento: o provincianismo com que o mercado do livro concentra e aprisiona a literatura de nossa língua, e que explicado de forma simples quer dizer que os autores chilenos só interessam no Chile, os mexicanos no México e os colombianos na Colômbia, como se cada país hispano-americano falasse uma língua diferente ou como se o prazer estético de cada leitor hispano-americano obedecesse, antes de tudo, a uns referentes nacionais, quer dizer, provincianos, algo que não acontecia na década de setenta, por exemplo, quando surgiu o boom, nem, apesar da má distribuição, na década de cinquenta ou quarenta.
   Mas, enfim, não era disso que falávamos com Villoro, mas de outros escritores, escritores como Henry Miller ou Artaud ou B. Traven ou Tristan Tzara, escritores que contribuíram para nossa educação sentimental e que agora já não se podem encontrar nos catálogos das livrarias pela simples razão de que quase não tem novos leitores. E também daqueles mais jovens, escritores da nossa geração, como Sophie Podolski ou como Mathieu Messagier, que foram jovens absolutamente maravilhosos e de grande talento e aos quais já não só não é possível encontrar nas livrarias como tampouco nos sites de busca da internet, o que quer dizer muito, como se nunca tivessem existido ou como se nós os tivéssemos imaginado. A resposta a esse refluxo de escritores, no entanto, é muito simples. Assim como o amor se move com uma mecânica similar a do mar, como dizia o poeta nicaraguense Martínez Rivas, assim também se movem os escritores, e um dia aparecem e logo desaparecem e logo, quem sabe, voltam a aparecer. E se não voltam a aparecer também não importa tanto porque eles, de alguma maneira secreta, já são nós.   
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(Texto de Roberto Bolaño publicado originalmente em um jornal espanhol e reunido posteriormente, junto com o conjunto de seus artigos jornalísticos, no volume Entre paréntesis, editado pela Anagrama. Tradução minha).

domingo, 25 de março de 2012

"La francesa", Roberto Bolaño

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A Francesa

Roberto Bolaño

Uma mulher inteligente.
Uma mulher bonita.
Conhecia todas as variantes, todas as possibilidades.
Leitora dos aforismos de Duchamp e dos relatos de
    Defoe.
Em geral com um autocontrole invejável,
A não ser quando se deprimia e se embebedava,
Algo que podia durar dois ou três dias,
Uma sucessão de bordôs e valiums
De te deixar arrepiado.
Então costumava contar as histórias que lhe aconteceram
Entre os 15 e os 18.
Um filme de sexo e de terror,
Corpos nus e negócios nos limites da lei,
Uma atriz vocacional e ao mesmo tempo uma menina com
    estranhos traços de avareza.
Conheci-a quando acabava de fazer 25,
Em uma época tranquila.
Acho que tinha medo da velhice e da morte.
A velhice para ela eram os trinta anos,
A Guerra dos Trinta Anos,
Os trinta anos de Cristo quando começou a pregar,
Uma idade como qualquer outra, eu dizia enquanto
    jantávamos
À luz das velas
Contemplando o correr do rio mais literário do
    planeta.
Mas para a gente o prestígio estava em outro lugar,
Nas faixas possuídas pela lentidão, nos gestos
Primorosamente lentos
Do desconcerto nervoso,
Nas camas escuras,
Na multiplicação geométrica das vitrines vazias
E no buraco da realidade,
Nosso absoluto,
Nosso Voltaire,
Nossa filosofia de alcova e toucador.
Como dizia, uma garota inteligente,
Com essa rara virtude precavida
(Rara para nós, latino-americanos)
Que é tão comum em sua pátria,
Onde até os assassinos tem uma caderneta de
    poupança
E ela não ia ser menos,
Uma caderneta de poupança e uma foto de Tristán Cabral,
A nostalgia do não vivido,
Enquanto aquele prestigioso rio arrastava um sol
    moribundo
E sobre suas bochechas rolavam lágrimas aparentemente
    gratuitas.
Não quero morrer, sussurrava enquanto gozava
Na perspicaz escuridão do dormitório,
E eu não sabia o que dizer,
Na verdade não sabia o que dizer,
A não ser acariciá-la e sustentá-la enquanto se movia
Para cima e para baixo como a vida,
Para cima e para baixo como as poetas da França
Inocentes e castigadas,
Até que voltava ao planeta Terra
E de seus lábios brotavam
Passagens de sua adolescência que de improviso enchiam
    nosso quarto
Com duplos que choravam nas escadas rolantes
    do metrô,
Com duplos que faziam amor com dois caras de uma vez
Enquanto lá fora caía a chuva
Sobre os sacos de lixo e sobre as pistolas
    abandonadas
Nos sacos de lixo,
A chuva que tudo lava
Menos a memória e a razão.
Vestidos, jaquetas de couro, botas italianas, lingerie
    para deixar qualquer um louco,
Para deixá-la louca,
Apareciam e desapareciam em nosso quarto
    fosforescente e pulsante,
E traços rápidos de outras aventuras menos íntimas
Fulguravam em seus olhos feridos como vagalumes.
Um amor que não ia durar muito
Mas que depois resultaria inesquecível.
Isso ela disse,
Sentada junto à janela,
Seu rosto suspenso no tempo,
Seus lábios: os lábios de uma estátua.
Um amor inesquecível
Sob a chuva,
Sob esse céu eriçado de antenas onde conviviam
As abóbadas do século XVII
Com as cagadas de pombos do século XX.
E no meio
Toda a inextinguível capacidade de provocar dor,
Invicta através dos anos,
Invicta através dos amores
Inesquecíveis.
Isso ela disse, sim.
Um amor inesquecível
E breve,
Como um furacão?
Não, um amor breve como o suspiro de uma cabeça
    guilhotinada,
A cabeça de um rei ou um conde bretão,
Breve como a beleza,
A beleza absoluta,
A que contém toda a grandeza e a miséria do mundo
E que é visível apenas para os que amam.
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(Poema do livro Los perros románticos, publicado em 2006 pela editora catalã Acantilado; tradução de Clarisse Lyra).
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domingo, 18 de março de 2012

Um poema tirado de uma novela

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Nas últimas páginas de Divertimento, novela escrita por Cortázar em 1949 mas publicada apenas em 1986, aparece um poema dito por Insecto, o narrador do relato, para uma audiência de amigos. Entre estes estão Susana, que chora ao ouvi-lo, e Jorge, um poeta adepto da poesia automática surrealista, que escarnece do texto pré-fabricado do amigo: "Parece uma das coisas que preferia Don Leonardo Nuri, nosso defunto pai. Mas há que se reconhecer no Insecto um certo aproveitamento da técnica do primeiro Neruda, combinado com um sentimentalismo carrieguino que não está de todo mal". Antes de dizer o poema, Insecto avisa: "Vou dizer um poema pequeno e idiota. Não é um soneto [Insecto era famoso entre seus amigos por escrever sonetos, o que parecia uma verdadeira infâmia para eles], nem sequer é poético. Escrevi depois de ouvir uma canção de Damia em um disco que depois se quebrou ou foi esquecido em alguma casa. É um bom poema, é este poema", e então ele o diz. Eu fiz uma tradução do tal pequeñito e idiota. E agrego em seguida um áudio da canção de que fala Cortázar.         
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JAVA

C'est la java d'celui qui s'en va -

Ficaremos sós e será já de noite.
Ficaremos sós meu travesseiro e meu silêncio
e estará a janela olhando inutilmente
os barcos e as pontes que enfiam suas agulhas.

Eu direi: Já é bem tarde.
Não me responderão nem minhas luvas nem o pente,
somente teu cheiro, teu perfume esquecido
como uma carta voltada para baixo sobre a mesa.

Morderei uma maçã fumarei um cigarro
vendo descer as antenas da noite medusa
seu vasto caracol forrado de veludo

E direi: Já é noite
e estaremos de acordo oh móveis oh cinzas
com o realejo que sobe a esquina
os tristes ossinhos de um peixe e uma amapola.

C'est la java
  d'celui qui s'en va -

É justo, coração, canta o que fica
canta o que fica para cuidar da casa.
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O livro foi traduzido pro português pela editora Civilização Brasileira e talvez aí se encontre uma versão melhor do que a que eu ofereço aqui. O livrinho inteiro vale a visita, aliás. E se pode acompanhar a letra da canção de Damia por aqui.
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sábado, 10 de março de 2012

"Caminhos do espelho", Alejandra Pizarnik

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Desenho de Tâmara Lyra
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Gostaria de ter postado este poema no dia da mulher. Não por algum motivo especial, talvez apenas pra apresentar uma espécie de homenagem (digo "espécie" porque não se trata de uma homenagem, não tem porque ser homenagem) diferente daquelas representadas por botões de rosa vermelhos e comerciais de O Boticário. No entanto, por questões de obrigações estudantis e reformas no banheiro, isso não foi possível. O poema da poeta argentina Alejandra Pizarnik - de quem já falei aqui neste blog -, de todo modo, é de uma beleza imensa, que provavelmente eu não consegui manter na tradução. Suas imagens tem uma potência reveladora e desvelam um imaginário insólito que liga sua poética ao surrealismo. Como traduzi-lo era uma tarefa que me motivava já há algum tempo, dei um jeitinho de consultar uns dicionários ontem à tarde e posto aqui o resultado. O poema se encontra no livro Extracción de la piedra de la locura, de 1968. 
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CAMINHOS DO ESPELHO    
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I
mmmE sobretudo olhar com inocência. Como se não acontecesse nada, o que é certo.

II
mmmMas a ti quero observar até que teu rosto se afaste de meu medo como um pássaro da borda afiada da noite.

III
mmmComo uma menina de giz cor-de-rosa em um muro muito velho subitamente apagada pela chuva.

IV
mmmComo quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V
mmmTodos os gestos de meu corpo e de minha voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que abandona o vento na soleira.

VI
mmmCobre a memória de tua cara com a máscara da que serás e assusta a menina que foste.

VII
mmmA noite dos dois se dispersou com a névoa. É a estação dos alimentos frios.

VIII
mmmE a sede, minha memória é da sede, eu embaixo, no fundo, no poço, eu bebia, me lembro.

IX
mmmCair como um animal ferido no lugar que ia ser de revelações.

X
mmmComo quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca costurada. Pálpebras costuradas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI
mmmAo negro sol do silêncio as palavras douravam.

XII
mmmMas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Tem alguém aqui que treme.

XIII
mmmMesmo se digo sol e lua e estrela me refiro a coisas que acontecem a mim. E que desejava eu?
mmmDesejava um silêncio perfeito
mmmPor isso falo.

XIV
mmmA noite tem a forma de um grito de lobo.

XV
mmmDelícia de perder-se na imagem pressentida. Eu me levantei de meu cadáver, eu fui em busca de quem sou. Peregrina de mim, fui em direção à que dorme em um país ao vento.

XVI
mmmMinha queda sem fim à minha queda sem fim onde ninguém me aguardou pois ao olhar quem me aguardava não vi outra coisa que a mim mesma.

XVII
mmmAlgo caía no silêncio. Minha última palavra foi eu mas me referia à aurora luminosa.

XVIII
mmmFlores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX
mmmDeslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, uma mão arrasta a cabeleira de uma afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei de voltar a meus ossos doridos, hei de compreender o que diz minha voz.
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

"De cómo evolucionan los oficios del hombre", Antonio Di Benedetto

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Mais uma tradução de Antonio Di Benedetto, pra fecharmos a série. Mais um conto do Cuentos del exilio (1983).
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DE COMO EVOLUEM OS OFÍCIOS DO HOMEM
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          A filha do carrasco era bela e gentil. Não ignorava a atividade do pai, sem discutí-la ou horrorizar-se com ela, pois, como todos na comarca, considerava-a uma profissão necessária.
No entanto, nunca presenciava uma execução, nem em família se falava das alternativas do trabalho do pai.
O pai preparava seus instrumentos na oficina da parte subterrânea da casa, e a filha observou que a corda era muito tosca. Deduziu que suas ásperas fibras, além de cumprir sua missão de quebrar o pescoço ou suspender a respiração dos condenados, seguramente com seu roçar inclemente os lastimava mais que o necessário.
Também suportou com naturalidade e resignação esse descobrimento.
Até que soube que o carrasco teria que enforcar a filha do marquês, que havia pecado contra a honra da família e do rei. Não quis admitir a idéia de mil pequenos arranhões na branca pele da dama que, em segredo, era seu modelo e seu ídolo.
Então, como um tributo, forjou uma corda de seda, suavíssima, e pediu a seu pai que a aceitasse como presente, para celebrar a distinção que o rei lhe concedera encarregando-lhe da execução da filha do marquês, com preferência sobre todos os outros carrascos oficiais.
O pai sorriu-se discretamente ante a ingenuidade da jovem, que lhe dava uma corda de seda para usar no lugar de seu forte cordel de cânhamo, mas esticou-a em seus potentes braços e comprovou que resistia.
Usou-a para o pescoço da filha do marquês e satisfeito com o resultado decidiu incorporar o laço de seda aos instrumentos de seu ofício, seguro de ganhar outra vantagem sobre todos os demais colegas de seu país e outros países.
Por isso, ao voltar ao lar, declarou à filha:
– Obrigado por sua ajuda.
Mas em lugar de sorrir com aprovação pelo gesto, a jovem soluçou.
O pai percebeu que essas lágrimas obedeciam a uma confusa causa, que não era a de uma emoção filial.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

"Rincones", Antonio Di Benedetto

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Outra tradução minha para um conto de Antonio Di Benedetto. Desta vez, "Rincones", também reunido no livro Cuentos del exilio (1983).
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CANTOS
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Acho que era amor e, no entanto, não perseveramos.
Após dez anos desse encontro/desencontro, dei de cara com ela ao entrar em um escritório.
Conversamos. Eu havia me casado, ela não, mas não insinuou que me culpava por sua solteirice.
Quis defender-se do que já havia passado, e deixou cair uma acusação trivial:
– Não te entendia, Pedro. Seu caráter tão complexo...
Deixou no ar a repreensão caduca e se recompôs para confessar sua própria fraqueza:
– Bom, se eu também não entendo as coisas mais simples.
Opinei que ela insistia em se maltratar com sua excessiva modéstia. Aceitou, à sua maneira:
— Não sei... sou assim. Sempre vai me encontrar pelos cantos.
Em seguida, nessa manhã, nos deixamos ir.
Depois, ao descer de um ônibus, outro ônibus destroçou seu corpo.
Soube por um jornal vespertino. Acudi com o pequeno cortejo de surpreendidos e pesarosos que ela podia reunir.
Alguém havia exercido a piedade de recompor, ainda que toscamente, sua face muito machucada. Mas ninguém teve a compaixão de cobrir o círculo de vidro do caixão, para que não nos detivéssemos ante o rosto desfigurado.
Já não era ela.
Agora deslizo pelos cantos. Os cantos que possuem as casas que constroem os homens e os cantos que têm os espaços abertos: ruas, praças, alamedas. Procuro por ela.
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sábado, 26 de novembro de 2011

"Martina espera", Antonio Di Benedetto

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Traduzi este conto há uns quatro anos. Até já tive um blog que se chamava assim, Martina espera, e que durou apenas umas semanas. Redescobri a tradução entre meus arquivos nestes últimos dias, quando buscava uma outra coisa. E acho que não cairia mal colocá-la aqui. O conto faz parte do livro Cuentos del exilio (1983), do argentino Antonio Di Benedetto (1922 - 1986). Sua obra contística é toda muito boa, por sinal. Li seus contos completos lá pelo lejano ano de 2007 e me lembro de ter gostado de todos os livros. De seus romances, só conheço um: El silenciero, que também me agradou bastante.
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MARTINA ESPERA
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         Martina espera o marido.
         Quer agradá-lo. O marido amava gatos. Ela cria um gato de luxo, de suave e copioso pelo.
         Martina quase não precisa do mundo exterior. Só aparece para receber ou gastar com o imprescindível suas discretas rendas.
         Após doze anos regressa o marido. Vem grisalho, mas fortalecido pela luta com os bosques e as montanhas, os pântanos e os rios. Não traz os dólares que sua esperança lhe tinha prometido ao partir.
         Martina o vê afundar os dedos na pelagem já opaca e algo encrespada do gato. Como se o saudasse com mais ternura que a ela. Depois não o toca mais.
         Um dia Martina observa que abre uma janela e permanece muito tempo olhando para fora, para o céu.
         Deixa a janela aberta e ela diz “Está ventando” e ele responde “Muda o cheiro das coisas”.
         Pouco depois desaparece, ele com a maleta.
         Martina compreende que se foi, sem um adeus. Sem explicações. Nada mais compreende.
         Contempla, examina a sala e diz a si mesma que está como era doze anos atrás.
        Registra o rosto diante do espelho; fita os cabelos e se concede indulgência: “Como me penteava então, como ele gostava”.
         Senta-se absorta. Trata de entender.
         O gato se desloca, de um sofá a outro, para cochilar mais perto do canto preferido.
         Martina o observa. Repreende-o, com uma voz tênue, como sem dor:
         – Não gostou de você, por isso se foi. Que ia fazer aqui, sem um gato que lhe agradasse? 
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Algo de Alejandra Pizarnik

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Disponho aqui traduções minhas para alguns dos poemas do livro Árbol de Diana (1962), da poeta argentina Alejandra Pizarnik. Essas traduções também se encontram publicadas na revista eletrônica Desenredos e podem ser lidas clicando-se aqui. Alejandra Pizarnik nasceu em 29 de abril de 1936 em Buenos Aires, Argentina. Aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena (1955), que seria depois renegado por ela e excluído de suas principais antologias. Cinco de seus poemários tem sido apontados como peças fundamentais de sua obra: Árbol de Diana (1962), Los trabajos y las noches (1965), Extracción de la piedra de la locura (1968), El infierno musical (1971) e Textos de la sombra y Últimos poemas (1982), este último publicado postumamente. Escreveu também prosa – principalmente ensaios e leituras críticas, nos quais muitas vezes é possível vislumbrar uma espécie de arte poética de sua própria produção – e traduziu autores de língua francesa como Antonin Artaud e Aimé Cesaire. Segundo Silvia Baron Supervielle e Claude Couffon, responsáveis pela edição de sua poesia completa na França, reina na obra de Alejandra um potente desejo de silêncio e em seus poemas tudo é, a um só tempo, real e irreal. Em 25 de setembro de 1972, aos 36 anos, morreu em Buenos Aires em decorrência de ingestão excessiva de barbitúricos.*
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Estas são as versões que nos propõe:
um buraco, uma parede que treme...
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por um minuto de vida breve
única de olhos abertos
por um minuto de ver
no cérebro flores pequenas
dançando como palavras na boca de um mudo
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ela se despe no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
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um vento fraco
cheio de rostos dobrados
que recorto em forma de objetos para amar
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agora
mmmnesta hora inocente
eu e a que fui nos sentamos
no umbral de meu olhar
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explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
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te afastas dos nomes
que fiam o silêncio das coisas
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Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível já sabiam os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso em suas preces havia um som de mãos apaixonadas pela névoa.
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no inverno fabuloso
a endecha das asas na chuva
na memória da água dedos de névoa
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É um fechar de olhos e jurar não abri-los. Enquanto do lado de fora se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento na verdade demasiado grande pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soam magicamente.
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Para além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência
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* Pequena biografia incluída por sugestão muito bem-vinda de Juliana Bratfisch.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

E por falar em Roberto Bolaño

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Ele ficou muito conhecido após sua morte, em 15 de julho de 2003, por seus contos de grande estranhamento, por suas novelas e por seus romances caudalosos. Mas o que pouca gente comenta é que Bolaño também foi um excelente poeta. Ele próprio se considerava muito mais poeta do que prosador, dizia que sua poesia lhe ruborizava menos que sua ficção. Tanto é assim que não existem no Brasil traduções oficiais de seus poemas. Enquanto isso, eu ando por aqui, ensaiando o espanhol e alguns ensinamentos de tradução. Me gusta bastante seu livro Los Perros románticos, de onde extraí "Lupe", traduzido abaixo, e "A Visita ao convalescente", tradução que publiquei na revista virtual Desenredos e que se encontra aqui. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Lupe", Roberto Bolaño

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Lupe

Trabalhava na guerreiro, a poucas ruas da casa de
mmJulián
E tinha 17 anos e tinha perdido um filho.
A lembrança lhe fazia chorar naquele quarto do hotel
mmTrébol,
espaçoso e escuro, com chuveiro e bidê, o lugar ideal
para viver durante alguns anos. O lugar ideal para
mmescrever
um livro de memórias apócrifas ou um ramalhete
de poemas de terror. Lupe
era magra e tinha as pernas compridas e manchadas
como os leopardos.
A primeira vez nem sequer tive uma ereção:
tampouco esperava ter uma ereção. Lupe falou de sua
mmvida
e do que para ela era a felicidade.
Depois de uma semana voltamos a nos ver. Encontrei-a
numa esquina junto com outras putinhas adolescentes,
apoiada no paralamas de um velho cadilac.
Acho que nos alegramos em nos ver. A partir de então
Lupe começou a me contar coisas de sua vida, às vezes
mmchorando,
às vezes trepando, quase sempre nus na cama,
olhando pro teto de mãos dadas.
Seu filho nasceu doente e Lupe prometeu à Virgem
que deixaria o ofício se seu bebê se curasse.
Manteve a promessa por um mês ou dois e logo teve que
mmvoltar.
Pouco depois seu filho morreu e Lupe dizia que a culpa
era sua por não cumprir com a Virgem.
A Virgem levou o anjinho por uma promessa não
mmmantida.
Eu não sabia o que dizer.
Eu gostava de crianças, sem dúvida,
Mas ainda faltavam muitos anos para que eu soubesse
o que era ter um filho.
Assim eu ficava calado e pensava no estranho
que parecia o silêncio daquele hotel.
Ou tinha as paredes muito grossas ou éramos os únicos
mmocupantes
ou os demais não abriam a boca nem para gemer.
Era tão fácil manejar Lupe e sentir-se homem
e sentir-se desgraçado. Era fácil acompassá-la
a seu ritmo e era fácil escutá-la falar
dos últimos filmes de terror que tinha visto
no cine Bucareli.
Suas pernas de leopardo envolviam minha cintura
e afundava sua cabeça no meu peito buscando meus mamilos
ou as batidas do meu coração.
É isso que quero chupar, me disse uma noite.
O quê, Lupe? O coração.

"Don't Let That Horse", Lawrence Ferlinghetti

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 m
Não deixe esse cavalo
 m
Não deixe esse cavalo
mmmcomer esse violino
gritou a mãe de Chagall
m
mmmmMas ele
mmmmcontinou
mmmmpintando
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E ficou famoso
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E continuou pintando
mmmmmmmO Cavalo com Violino na Boca
E quando finalmente o acabou
ele pulou sobre o cavalo
mmmmme se mandou
mmmacenando com o violino
m
E então com uma mesura discreta ele o deu
ao primeiro nu pelado com quem cruzou
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E não havia cordas
mmmatadas
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***
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Sou fissurada em poema-imagem. E adoro poesia narrativa. Reparem nesse poema de Lawrence Ferlinghetti que traduzi. Ele é o que se pode chamar de "poemaimagemquecontaumahistória". E ele é assim porque, efetivamente, ele é um quadro de Marc Chagall. Ele não traduz ou representa um quadro de Chagall; "Don't let that horse" é o próprio óleo em tela. E os quadros de Chagall são assim. Eles não tem a calma contemplativa das naturezas-mortas de Matisse. Acontecem coisas neles. E acontece exatamente o tipo de coisa que Ferlinghetti narra no poema: coisas absurdas, surreais, irresistíveis de se apurar os detalhes. O que poderia ser natureza-morta em Chagall é frequentemente perturbado por um nu feminino flutuante, por um casal de noivos sem contexto ou mesmo por um cavalo tocando violino. "Don't let that horse" harmoniza-se completamente com o universo de Chagall: o cavalo, o violino, o salto, o "naked nude" e o absurdo da falta de cordas no violino são elementos importantes e constantes na poética do pintor. De fato, "Don't let that horse" é um quadro com todas as emoções e movimentos de Chagall. Mas pintado com a ironia de Ferlinghetti.