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quinta-feira, 4 de abril de 2013


penso em
morrer umas
7 vezes
ao dia.
não planejo
não premedito
não tento
suicídio. se
me lembro
da asneira
de 5
ou 7
anos atrás
se minhas
roupas quase
todas tão
mofadas aliás
se ninguém
me telefona
faz uns
vinte e
tantos dias
se as
coisas que
escrevo eu
li antes
eu copio.
sugiro investigar
semio-logicamente
o que
queira dizer
este querer
morrer. acredito
que psicolo
gicamente astrologi
camente fisi
fisic
amente
o sintagma
parece claro.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

pequena intermitência matutina


uma pergunta
espontaneamente formulada
pode trazer à tona –
 
      o riso terso da menina
      duas palavras de pura descontração
      um humor totalmente não-advertido

            o leve gosto
            doce-azedo
            de 3 ou 4 pequenos
            pequenos araçás
            na boca

domingo, 22 de abril de 2012

"Cronos", Nicanor Parra

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Cronos
Nicanor Parra
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n
Em Feira de Santana
Os
mmdias
mmmmsão
mmmmmminterminavelmente
mmmmmmmmmmmmmmmmlongos:
Várias eternidades em um dia.
Nos movemos a lombo de mula
Como os vendedores de Varzedo:
Se boceja. Volta-se a bocejar.
No entanto as semanas são curtas
Os meses passam a toda
Eosanosparecemquevoam.
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***
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(Poema do livro Canciones rusas, de 1967. Tradução recontextualizada de Clarisse Lyra).
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*
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E já que estamos pensando em Feira de Santana (que no poema veio ocupar o lugar de Santiago do Chile), gostaria de compartilhar uma música que me emocionou esta manhã. Trata-se de If You Hold a Stone, de Caetano Veloso.

sábado, 21 de abril de 2012

"Mariposa", Nicanor Parra

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Borboleta
Nicanor Parra
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No jardim que parece um abismo
A borboleta chama a atenção:
Interessa seu voo recortado
Suas cores brilhantes
E os círculos pretos que decoram as pontas
mmmdas asas.
m
Interessa a forma do abdômen.
m
Quando gira no ar
Iluminada por um raio verde
Como quando descansa do efeito
Que lhe produzem o orvalho e o pólen
Aderida ao anverso da flor
Não a perco de vista
E se desaparece
Para além da cerca do jardim
Porque o jardim é pequeno
Ou por excesso de velocidade
Sigo-a mentalmente
Por alguns segundos
Até que recupero a razão.
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***
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(Poema do livro Versos de salón, de 1962. Tradução de minha autoria).

domingo, 15 de abril de 2012

"Tres poesías", Nicanor Parra

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Três poesias
Nicanor Parra
m 
1
Já não me resta nada a dizer.
Tudo o que tinha a dizer
Foi dito não sei quantas vezes.
m 
2
Perguntei não sei quantas vezes
Mas ninguém responde minhas perguntas.
É absolutamente necessário
Que o abismo responda de uma vez
Porque já vai restando pouco tempo.
m 
3
Apenas uma coisa é clara:
Que a carne se enche de vermes.
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***
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(Poema publicado em Versos de salón (1962). Tradução de minha autoria).

domingo, 25 de março de 2012

"La francesa", Roberto Bolaño

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A Francesa

Roberto Bolaño

Uma mulher inteligente.
Uma mulher bonita.
Conhecia todas as variantes, todas as possibilidades.
Leitora dos aforismos de Duchamp e dos relatos de
    Defoe.
Em geral com um autocontrole invejável,
A não ser quando se deprimia e se embebedava,
Algo que podia durar dois ou três dias,
Uma sucessão de bordôs e valiums
De te deixar arrepiado.
Então costumava contar as histórias que lhe aconteceram
Entre os 15 e os 18.
Um filme de sexo e de terror,
Corpos nus e negócios nos limites da lei,
Uma atriz vocacional e ao mesmo tempo uma menina com
    estranhos traços de avareza.
Conheci-a quando acabava de fazer 25,
Em uma época tranquila.
Acho que tinha medo da velhice e da morte.
A velhice para ela eram os trinta anos,
A Guerra dos Trinta Anos,
Os trinta anos de Cristo quando começou a pregar,
Uma idade como qualquer outra, eu dizia enquanto
    jantávamos
À luz das velas
Contemplando o correr do rio mais literário do
    planeta.
Mas para a gente o prestígio estava em outro lugar,
Nas faixas possuídas pela lentidão, nos gestos
Primorosamente lentos
Do desconcerto nervoso,
Nas camas escuras,
Na multiplicação geométrica das vitrines vazias
E no buraco da realidade,
Nosso absoluto,
Nosso Voltaire,
Nossa filosofia de alcova e toucador.
Como dizia, uma garota inteligente,
Com essa rara virtude precavida
(Rara para nós, latino-americanos)
Que é tão comum em sua pátria,
Onde até os assassinos tem uma caderneta de
    poupança
E ela não ia ser menos,
Uma caderneta de poupança e uma foto de Tristán Cabral,
A nostalgia do não vivido,
Enquanto aquele prestigioso rio arrastava um sol
    moribundo
E sobre suas bochechas rolavam lágrimas aparentemente
    gratuitas.
Não quero morrer, sussurrava enquanto gozava
Na perspicaz escuridão do dormitório,
E eu não sabia o que dizer,
Na verdade não sabia o que dizer,
A não ser acariciá-la e sustentá-la enquanto se movia
Para cima e para baixo como a vida,
Para cima e para baixo como as poetas da França
Inocentes e castigadas,
Até que voltava ao planeta Terra
E de seus lábios brotavam
Passagens de sua adolescência que de improviso enchiam
    nosso quarto
Com duplos que choravam nas escadas rolantes
    do metrô,
Com duplos que faziam amor com dois caras de uma vez
Enquanto lá fora caía a chuva
Sobre os sacos de lixo e sobre as pistolas
    abandonadas
Nos sacos de lixo,
A chuva que tudo lava
Menos a memória e a razão.
Vestidos, jaquetas de couro, botas italianas, lingerie
    para deixar qualquer um louco,
Para deixá-la louca,
Apareciam e desapareciam em nosso quarto
    fosforescente e pulsante,
E traços rápidos de outras aventuras menos íntimas
Fulguravam em seus olhos feridos como vagalumes.
Um amor que não ia durar muito
Mas que depois resultaria inesquecível.
Isso ela disse,
Sentada junto à janela,
Seu rosto suspenso no tempo,
Seus lábios: os lábios de uma estátua.
Um amor inesquecível
Sob a chuva,
Sob esse céu eriçado de antenas onde conviviam
As abóbadas do século XVII
Com as cagadas de pombos do século XX.
E no meio
Toda a inextinguível capacidade de provocar dor,
Invicta através dos anos,
Invicta através dos amores
Inesquecíveis.
Isso ela disse, sim.
Um amor inesquecível
E breve,
Como um furacão?
Não, um amor breve como o suspiro de uma cabeça
    guilhotinada,
A cabeça de um rei ou um conde bretão,
Breve como a beleza,
A beleza absoluta,
A que contém toda a grandeza e a miséria do mundo
E que é visível apenas para os que amam.
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(Poema do livro Los perros románticos, publicado em 2006 pela editora catalã Acantilado; tradução de Clarisse Lyra).
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domingo, 18 de março de 2012

Um poema tirado de uma novela

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Nas últimas páginas de Divertimento, novela escrita por Cortázar em 1949 mas publicada apenas em 1986, aparece um poema dito por Insecto, o narrador do relato, para uma audiência de amigos. Entre estes estão Susana, que chora ao ouvi-lo, e Jorge, um poeta adepto da poesia automática surrealista, que escarnece do texto pré-fabricado do amigo: "Parece uma das coisas que preferia Don Leonardo Nuri, nosso defunto pai. Mas há que se reconhecer no Insecto um certo aproveitamento da técnica do primeiro Neruda, combinado com um sentimentalismo carrieguino que não está de todo mal". Antes de dizer o poema, Insecto avisa: "Vou dizer um poema pequeno e idiota. Não é um soneto [Insecto era famoso entre seus amigos por escrever sonetos, o que parecia uma verdadeira infâmia para eles], nem sequer é poético. Escrevi depois de ouvir uma canção de Damia em um disco que depois se quebrou ou foi esquecido em alguma casa. É um bom poema, é este poema", e então ele o diz. Eu fiz uma tradução do tal pequeñito e idiota. E agrego em seguida um áudio da canção de que fala Cortázar.         
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JAVA

C'est la java d'celui qui s'en va -

Ficaremos sós e será já de noite.
Ficaremos sós meu travesseiro e meu silêncio
e estará a janela olhando inutilmente
os barcos e as pontes que enfiam suas agulhas.

Eu direi: Já é bem tarde.
Não me responderão nem minhas luvas nem o pente,
somente teu cheiro, teu perfume esquecido
como uma carta voltada para baixo sobre a mesa.

Morderei uma maçã fumarei um cigarro
vendo descer as antenas da noite medusa
seu vasto caracol forrado de veludo

E direi: Já é noite
e estaremos de acordo oh móveis oh cinzas
com o realejo que sobe a esquina
os tristes ossinhos de um peixe e uma amapola.

C'est la java
  d'celui qui s'en va -

É justo, coração, canta o que fica
canta o que fica para cuidar da casa.
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O livro foi traduzido pro português pela editora Civilização Brasileira e talvez aí se encontre uma versão melhor do que a que eu ofereço aqui. O livrinho inteiro vale a visita, aliás. E se pode acompanhar a letra da canção de Damia por aqui.
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sábado, 10 de março de 2012

"Caminhos do espelho", Alejandra Pizarnik

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Desenho de Tâmara Lyra
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Gostaria de ter postado este poema no dia da mulher. Não por algum motivo especial, talvez apenas pra apresentar uma espécie de homenagem (digo "espécie" porque não se trata de uma homenagem, não tem porque ser homenagem) diferente daquelas representadas por botões de rosa vermelhos e comerciais de O Boticário. No entanto, por questões de obrigações estudantis e reformas no banheiro, isso não foi possível. O poema da poeta argentina Alejandra Pizarnik - de quem já falei aqui neste blog -, de todo modo, é de uma beleza imensa, que provavelmente eu não consegui manter na tradução. Suas imagens tem uma potência reveladora e desvelam um imaginário insólito que liga sua poética ao surrealismo. Como traduzi-lo era uma tarefa que me motivava já há algum tempo, dei um jeitinho de consultar uns dicionários ontem à tarde e posto aqui o resultado. O poema se encontra no livro Extracción de la piedra de la locura, de 1968. 
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CAMINHOS DO ESPELHO    
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I
mmmE sobretudo olhar com inocência. Como se não acontecesse nada, o que é certo.

II
mmmMas a ti quero observar até que teu rosto se afaste de meu medo como um pássaro da borda afiada da noite.

III
mmmComo uma menina de giz cor-de-rosa em um muro muito velho subitamente apagada pela chuva.

IV
mmmComo quando se abre uma flor e revela o coração que não tem.

V
mmmTodos os gestos de meu corpo e de minha voz para fazer de mim a oferenda, o ramo que abandona o vento na soleira.

VI
mmmCobre a memória de tua cara com a máscara da que serás e assusta a menina que foste.

VII
mmmA noite dos dois se dispersou com a névoa. É a estação dos alimentos frios.

VIII
mmmE a sede, minha memória é da sede, eu embaixo, no fundo, no poço, eu bebia, me lembro.

IX
mmmCair como um animal ferido no lugar que ia ser de revelações.

X
mmmComo quem não quer a coisa. Nenhuma coisa. Boca costurada. Pálpebras costuradas. Esqueci-me. Dentro o vento. Tudo fechado e o vento dentro.

XI
mmmAo negro sol do silêncio as palavras douravam.

XII
mmmMas o silêncio é certo. Por isso escrevo. Estou só e escrevo. Não, não estou só. Tem alguém aqui que treme.

XIII
mmmMesmo se digo sol e lua e estrela me refiro a coisas que acontecem a mim. E que desejava eu?
mmmDesejava um silêncio perfeito
mmmPor isso falo.

XIV
mmmA noite tem a forma de um grito de lobo.

XV
mmmDelícia de perder-se na imagem pressentida. Eu me levantei de meu cadáver, eu fui em busca de quem sou. Peregrina de mim, fui em direção à que dorme em um país ao vento.

XVI
mmmMinha queda sem fim à minha queda sem fim onde ninguém me aguardou pois ao olhar quem me aguardava não vi outra coisa que a mim mesma.

XVII
mmmAlgo caía no silêncio. Minha última palavra foi eu mas me referia à aurora luminosa.

XVIII
mmmFlores amarelas constelam um círculo de terra azul. A água treme cheia de vento.

XIX
mmmDeslumbramento do dia, pássaros amarelos na manhã. Uma mão desata as trevas, uma mão arrasta a cabeleira de uma afogada que não cessa de passar pelo espelho. Voltar à memória do corpo, hei de voltar a meus ossos doridos, hei de compreender o que diz minha voz.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Algo de Alejandra Pizarnik

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Disponho aqui traduções minhas para alguns dos poemas do livro Árbol de Diana (1962), da poeta argentina Alejandra Pizarnik. Essas traduções também se encontram publicadas na revista eletrônica Desenredos e podem ser lidas clicando-se aqui. Alejandra Pizarnik nasceu em 29 de abril de 1936 em Buenos Aires, Argentina. Aos 19 anos publicou seu primeiro livro de poemas, La tierra más ajena (1955), que seria depois renegado por ela e excluído de suas principais antologias. Cinco de seus poemários tem sido apontados como peças fundamentais de sua obra: Árbol de Diana (1962), Los trabajos y las noches (1965), Extracción de la piedra de la locura (1968), El infierno musical (1971) e Textos de la sombra y Últimos poemas (1982), este último publicado postumamente. Escreveu também prosa – principalmente ensaios e leituras críticas, nos quais muitas vezes é possível vislumbrar uma espécie de arte poética de sua própria produção – e traduziu autores de língua francesa como Antonin Artaud e Aimé Cesaire. Segundo Silvia Baron Supervielle e Claude Couffon, responsáveis pela edição de sua poesia completa na França, reina na obra de Alejandra um potente desejo de silêncio e em seus poemas tudo é, a um só tempo, real e irreal. Em 25 de setembro de 1972, aos 36 anos, morreu em Buenos Aires em decorrência de ingestão excessiva de barbitúricos.*
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Estas são as versões que nos propõe:
um buraco, uma parede que treme...
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por um minuto de vida breve
única de olhos abertos
por um minuto de ver
no cérebro flores pequenas
dançando como palavras na boca de um mudo
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ela se despe no paraíso
de sua memória
ela desconhece o feroz destino
de suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
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um vento fraco
cheio de rostos dobrados
que recorto em forma de objetos para amar
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agora
mmmnesta hora inocente
eu e a que fui nos sentamos
no umbral de meu olhar
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explicar com palavras deste mundo
que partiu de mim um barco levando-me
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te afastas dos nomes
que fiam o silêncio das coisas
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Aqui vivemos com uma mão na garganta. Que nada é possível já sabiam os que inventavam chuvas e teciam palavras com o tormento da ausência. Por isso em suas preces havia um som de mãos apaixonadas pela névoa.
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no inverno fabuloso
a endecha das asas na chuva
na memória da água dedos de névoa
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É um fechar de olhos e jurar não abri-los. Enquanto do lado de fora se alimentem de relógios e de flores nascidas da astúcia. Mas com os olhos fechados e um sofrimento na verdade demasiado grande pressionamos os espelhos até que as palavras esquecidas soam magicamente.
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Para além de qualquer zona proibida
há um espelho para nossa triste transparência
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* Pequena biografia incluída por sugestão muito bem-vinda de Juliana Bratfisch.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

joana se cansou de amores platônicos

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joana tem 15 anos.
joana se cansou de boys n' girls.
xii, ela não quer nem escutar aquele nome.
joana diz que está tudo bem.
e sabe, eu acho mesmo que está.
joana não pensa se matar.
joana quer se acostumar com a ideia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dois olhos como baratonas

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Roberto Bolaño, Adília Lopes
me perdoem
não sou a poeta que prometi
meus dotes são
do tempo em que a melancolia é o verniz das coisas
ocorrem-me carambolas, ocorrem-me cassas bordadas
mas não ocorre que isso seja poesia
isto é, ao que parece
coisas tolas apenas, coisas minhas.
desculpem-me o mau gosto das rimas e
por favor
não pensem que tenciono, com o lamento
choroso,
alcançar algum tipo de efeito meta/contraditório
: não sou Emily Dickinson
sou abeline
e acabo de descobrir que
tenho dois olhos
grandes como baratonas.

sábado, 6 de agosto de 2011

Poema escrito aos 18

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aos 14 anos
morreu-me um irmão
num acidente de carro
mmmmdepois do enterro
mmmmno mesmo dia
mmmmescrevi um poema
mas não era de fato um poema
mmera algo com rimas dor
mmgritos
e alguma amostra mais
ou menos
direta do caixão.
li-o para uma amiga uma tarde
e talvez ela tenha dito algo grave
talvez tenha chorado um pouco
comigo
embora eu tenha feito de tudo para que não chorássemos
nem eu
nem ela
mmmmchegando em casa
que mais poderia eu fazer
com um troço desse
se não trancá-lo num caderno
amarelecendo numa caixa
até que eu não pudesse mais
mmmesmo com o maior esforço
lembrar
que fim, jesus
pode ter tido

Poema de aniversário

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assim começa nossa corrida:
em julho você quase me alcança.
com 1 ano de diferença somos 
gêmeas
mmmquase
próximas ao máximo com narizes arrebitados e pés
nº 37.
em outubro, no entanto,
torno à dianteira
- e com isso, aviso:
não compita comigo em matéria de velhitude.
o tempo que pra você passa passa
também 

para mim
e posso ver
já
no canto de minha boca
uma ruga;
enquanto sua pele
clara
é só sardas e riso
no alto dos seus
21 anos.

sábado, 16 de abril de 2011

So distant

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Copos transparentes são sim os melhores
ao menos pra se beber a água;
cigarros não vão matar as horas mortas.
Eu era uma criança quando li Tabacaria.
16 anos, sim, mas muito verde, muito fruta, muito tonta
descobri-o no caderno 2 de um jornal
(aquela parte que meu pai sempre ignorava)
lê-lo com ou para os amigos foi frustrante:
todos o tinham visto na aula de literatura
tão diferente, tão outro poema, tão outra coisa / so distant.
Ah, sim, claro, Tabacaria,
o clássico poema de Pessoa
o mais famoso
o que todos costumam conhecer e citar e ler e tudo o mais
(não por outro motivo estaria no jornal).
Que experiência triste.
Os copos transparentes ou muito transparentes
tem algo de mais
tem algo de mágico de místico / poético
permitir ver a transparência dentro da transparência
permitir a visão inteira
o todo do copo / o todo interior do copo
o todo do líquido / o tudo que está contido no líquido
          e é tudo tão nada
          tão água
tão aparentemente vazio e nada e só
é como quando leio um livro ou escuto uma canção
m
– o que resta, depois de tudo?

sábado, 12 de março de 2011

Retrato de moça com Leica

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estar aqui sentada
é algo como estar aqui parada
não consigo mover mais que dois dedos ao digitar qualquer
mmmmmmmmmmmmmmmmm[de meus poemas ou balelas.
minha planta secou ficou preta
não consigo secar minhas pernas.
estar aqui sentada
é como ler algo que não entendo
não sei mais o que dizer aos estranhos
apenas passo encaro revolvo
apenas posso dizer que não caio
o retrato de Plath não me ilumina.
mmmminha mãe certamente me liga
só lhe posso dizer que não caia
só lhe posso contar da garoa
abro um dicionário
em qualquer de suas páginas as palavras
me dizem a mim
não passarás do conhecimento enciclopédico
não passarás de saber o irretorquível
jamais se aventurar fora do movido
a pura certeza e exibição
serás sempre a antítese de qualquer gesto simples
que busque algum tipo de exploração
mmmserás sempre o gesto puramente simples
de manter-se obstinada (dentro de sua falha).

domingo, 16 de janeiro de 2011

Três haikais e 1 poema de três versos

mm


las gotas de olor
pues que caigan mansamente
de los dulces árboles
mm
mm
estrada de terra
por quantas vezes senti
o cheiro do gado
mm
mm
se o olho do melro 
se mexe logo parece:
olha para mim
mm
***
mm
sim, posso ver-nos:
tardes quentes restos de sol
m
antigas piscinas

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

"Lupe", Roberto Bolaño

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Lupe

Trabalhava na guerreiro, a poucas ruas da casa de
mmJulián
E tinha 17 anos e tinha perdido um filho.
A lembrança lhe fazia chorar naquele quarto do hotel
mmTrébol,
espaçoso e escuro, com chuveiro e bidê, o lugar ideal
para viver durante alguns anos. O lugar ideal para
mmescrever
um livro de memórias apócrifas ou um ramalhete
de poemas de terror. Lupe
era magra e tinha as pernas compridas e manchadas
como os leopardos.
A primeira vez nem sequer tive uma ereção:
tampouco esperava ter uma ereção. Lupe falou de sua
mmvida
e do que para ela era a felicidade.
Depois de uma semana voltamos a nos ver. Encontrei-a
numa esquina junto com outras putinhas adolescentes,
apoiada no paralamas de um velho cadilac.
Acho que nos alegramos em nos ver. A partir de então
Lupe começou a me contar coisas de sua vida, às vezes
mmchorando,
às vezes trepando, quase sempre nus na cama,
olhando pro teto de mãos dadas.
Seu filho nasceu doente e Lupe prometeu à Virgem
que deixaria o ofício se seu bebê se curasse.
Manteve a promessa por um mês ou dois e logo teve que
mmvoltar.
Pouco depois seu filho morreu e Lupe dizia que a culpa
era sua por não cumprir com a Virgem.
A Virgem levou o anjinho por uma promessa não
mmmantida.
Eu não sabia o que dizer.
Eu gostava de crianças, sem dúvida,
Mas ainda faltavam muitos anos para que eu soubesse
o que era ter um filho.
Assim eu ficava calado e pensava no estranho
que parecia o silêncio daquele hotel.
Ou tinha as paredes muito grossas ou éramos os únicos
mmocupantes
ou os demais não abriam a boca nem para gemer.
Era tão fácil manejar Lupe e sentir-se homem
e sentir-se desgraçado. Era fácil acompassá-la
a seu ritmo e era fácil escutá-la falar
dos últimos filmes de terror que tinha visto
no cine Bucareli.
Suas pernas de leopardo envolviam minha cintura
e afundava sua cabeça no meu peito buscando meus mamilos
ou as batidas do meu coração.
É isso que quero chupar, me disse uma noite.
O quê, Lupe? O coração.

"Don't Let That Horse", Lawrence Ferlinghetti

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Não deixe esse cavalo
 m
Não deixe esse cavalo
mmmcomer esse violino
gritou a mãe de Chagall
m
mmmmMas ele
mmmmcontinou
mmmmpintando
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E ficou famoso
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E continuou pintando
mmmmmmmO Cavalo com Violino na Boca
E quando finalmente o acabou
ele pulou sobre o cavalo
mmmmme se mandou
mmmacenando com o violino
m
E então com uma mesura discreta ele o deu
ao primeiro nu pelado com quem cruzou
m
E não havia cordas
mmmatadas
m
***
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Sou fissurada em poema-imagem. E adoro poesia narrativa. Reparem nesse poema de Lawrence Ferlinghetti que traduzi. Ele é o que se pode chamar de "poemaimagemquecontaumahistória". E ele é assim porque, efetivamente, ele é um quadro de Marc Chagall. Ele não traduz ou representa um quadro de Chagall; "Don't let that horse" é o próprio óleo em tela. E os quadros de Chagall são assim. Eles não tem a calma contemplativa das naturezas-mortas de Matisse. Acontecem coisas neles. E acontece exatamente o tipo de coisa que Ferlinghetti narra no poema: coisas absurdas, surreais, irresistíveis de se apurar os detalhes. O que poderia ser natureza-morta em Chagall é frequentemente perturbado por um nu feminino flutuante, por um casal de noivos sem contexto ou mesmo por um cavalo tocando violino. "Don't let that horse" harmoniza-se completamente com o universo de Chagall: o cavalo, o violino, o salto, o "naked nude" e o absurdo da falta de cordas no violino são elementos importantes e constantes na poética do pintor. De fato, "Don't let that horse" é um quadro com todas as emoções e movimentos de Chagall. Mas pintado com a ironia de Ferlinghetti.